O pesquisador Marcelo Bonavides de Castro, publicou em seu Bog: Estrelas que nunca se apagam um trabalho dedicado especialmente a opereta de estréia de Chiquinha Gonzaga, A Corte na Roça, de 1885.

Obtivemos autorização para publica-lo na íntegra aqui no site. A publicação original é de sábado, 20 de janeiro de 2018 em http://bonavides75.blogspot.com.br/2018/01/a-corte-na-roca-opereta-de-1885.html

A CÔRTE NA ROÇA – OPERETA DE 1885

Hoje, dou início a um projeto que há tempos tenho vontade de apresentar no Blog, a trilha sonora de algumas peças de Teatro Musicado. É de meu interesse trazer, principalmente, as gravações originais (a partir de 1902) de músicas que fizeram parte de peças do teatro de revista, burletas, operetas, mágicas encenadas no Brasil. Infelizmente, não possuímos todas as músicas que compunham tais peças, mas podemos apresentar algumas gravações e dados sobre o espetáculo que darão uma ideia como eram essas atrações.

Para a primeira postagem sobre o tema, trago a opereta em um ato, A CÔRTE NA ROÇA, de Palhares Ribeiro, com música de Chiquinha Gonzaga, representada em 1885 no Rio de Janeiro. Para esta pesquisa foram consultados quatorze jornais através da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

A Côrte na Roça (mantivemos a grafia original) marca a estreia de uma mulher, Chiquinha Gonzaga, compondo músicas para teatro no Brasil, até então espaço exclusivamente masculino. Esse passo foi uma das muitas atitudes pioneiras de nossa primeira maestrina. Anos antes, em 1883, Chiquinha Gonzaga chegou a musicar uma peça de Arthur Azevedo, Viagem ao Parnaso, porém, o empresário da companhia vetou sua participação somente por ser mulher. Ao encontrar o iniciante Palhares Ribeiro, que escrevia poemas e romances nos jornais, a compositora pode então começar a atuar no teatro.

Ao pesquisar nos jornais da época sobre a estreia da opereta, notamos que a mesma foi adiada algumas vezes. Ao estrear, ainda teve o anúncio da segunda representação repetido em duas datas, causando confusão sobre o verdadeiro dia em que estreou. Fora isso, os artistas da companhia que encenavam a peça foram abandonados pelo empresário, Sousa Bastos, que havia voltado para sua terra, Portugal, deixando todos por conta própria, há meses sem receber salários. Segundo Edinha Diniz, biógrafa de Chiquinha Gonzaga, não havia ninguém para dirigi-los. O elenco era o da Companhia Sousa Bastos, que atuava no Theatro Príncipe Imperial (posterior Theatro São José, e depois cineteatro, situado na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro). Diniz ainda nos informa: “Muitos a dar ordens, ninguém para cumpri-las. […] No meio disso tudo, uma mulher tentava ensaiar sua partitura e impor-se, apesar de iniciante. Os atores lhe respondiam que na hora do espetáculo tudo sairia bem”. Um dos atores ainda quis retirar uma valsa simplesmente por não saber o que fazer enquanto cantava… O regente, quando não estava dormindo sobre as partituras, ensaiava-as com o andamento que lhe convinha. Era preciso que Chiquinha Gonzaga ficasse atenta e lhe informasse: “Mas fui eu quem escreveu esta música, não o senhor; respeite o meu pensamento!”.

A peça estreou em uma sexta-feira, 16 de janeiro de 1885, no Theatro Príncipe Imperial. Porém, antes, passou pela censura do Conservatório Dramático, que a aprovou; porém, a polícia alterou alguns versos, segundo o jornal Brazil: “Já não há nenhum escravo/ Na fazenda do sinhô/Tudo é boliçonista/ Até mesmo o imperadô” (grifo do autor). A polícia substituiu imperadô por seu dotô. A ação se passava na fazenda de Cebolas, em Queimados, no interior do Rio de Janeiro. Mesmo estreando com pouco público, como nos informa Diniz, foi aplaudida com entusiasmo. O maxixe final foi um sucesso e pediram bis, mas os atores não puderam atender, pois a autoridade presente mandou que abaixassem logo o pano, impedido a repetição do número. Em alguns jornais, há a citação de que o quadro foi bisado. A imprensa criticou o autor da peça e o desempenho dos autores, mas aclamou a música de Chiquinha Gonzaga, que foi também homenageada pelo público, com muitos aplausos, chamando-a ao palco. O elenco contava com a atriz Oudin, que encantou a todos durante o espetáculo, em especial ao cantar a valsa tema da peça (que depois faria parte do repertório da atriz Plácida dos Santos), e ainda com Anna Manarezzi e os atores Machado e Mauro de Bellido. Havia ainda um intermédio onde era interpretada por Mauro de Bellido a cançoneta de autoria de Chiquinha Gonzaga, Para a Cera do Santíssimo. A princípio, ocorreram três representações, nos dias 16, 17 e 18 de janeiro de 1885. Uma quarta representação aconteceu em uma sexta-feira, 23 de janeiro de 1885, entre algumas atrações do Theatro Recreio Dramatico para essa noite.

Entre as músicas que conseguimos reunir, e que constam no fim da postagem (com as letras) estão: a valsa (balada) A Côrte na Roça, que seria lançado em disco em 1903, gravado por Senhorita Odete; o tango Menina Faceira, lançado em 1906 por Geraldo Magalhães e em 1910, por Mário Pinheiro, e o tango (maxixe) Sacy Peréré, que foi gravado pela dupla Os Geraldos e lançado em disco em 1906. Também incluímos algumas gravações recentes feitas pelos pianistas e pesquisadores Wandrei Braga e Alexandre Dias.

A estreia da peça foi retratada na minissérie Chiquinha Gonzaga, da Rege Globo, em 1999, escrita por Lauro César Muniz e estrelada por Gabriela e Regina Duarte, interpretando Chiquinha Gonzaga e fases distintas.

Os Personagens

A Côrte na Roça se passava na fazenda de Cebolas, em Queimados (RJ), e contava com os seguintes personagens e seus respectivos intérpretes:

Zé Tavares (fazendeiro) Coronel da G. N. (Guarda Nacional) – Sr. Mauro de Bellido
Chico Bento, Amigo do coronel – Sr. Machado
Juca Barbosa (estudante, sobrinho do Tavares) – Sr. Moulin
Joaquim Lopes (professor) – Sr. Pinto
Padre Velludo – Sr. M. Braga
Dr. Camelião – Sr. Araujo
Um roceiro – Sr. Vicente
Um moleque – Sr. Rocha
Mlle. Celina Bernard, artista francesa – Mlle. Oudin
Cocota, filha do Coronel – Deolinda
D. Ambrozia (mulher do professor) – Manarezzi
Uma roceira – Amelia

Conta ainda com roceiros e roceiras.
A peça terminava com um esplêndido cateretê (maxixe).