Novos trabalhos revelam a dimensão da obra da compositora e reforçam sua atualidade artística, cultural e social.
Maristela Rocha, 2026
Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestra em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Música pela Universidade Federal de São João del-Rei. Bacharela em Comunicação Social, licenciada em Sociologia, Música e Arte.
O segundo programa da série Grandes Nomes da Música Brasileira, veiculado na extinta Rádio Farol e dedicado à vida e à obra de Chiquinha Gonzaga (1847–1935), constituiu, em 1991, um ponto de partida para muitos outros trabalhos desenvolvidos ao longo da minha trajetória, inseridos no campo da produção cultural e direcionados a públicos diversos. Nesse contexto, é significativo notar que a quantidade e, sobretudo, a qualidade das publicações, dos espetáculos e das gravações que, ano após ano, se debruçam sobre a vida e a obra da pianista, maestrina e compositora não deixam de surpreender; iniciativas que não apenas recuperam sua produção musical, mas também participam da contínua acumulação e atualização de seu capital simbólico, reafirmando seu papel como agente ativa na história social e cultural brasileira.
Esse movimento contínuo revela mais do que um interesse estético: mostra como a obra de Chiquinha Gonzaga permanece socialmente significativa. Artistas e pesquisadores de diferentes áreas vêm aprofundando estudos sobre a compositora, o que conduz, naturalmente, à revisão de dados antes considerados consolidados. A pesquisa, nesse sentido, é compreendida como prática social dinâmica, atravessada por novas fontes, novos direcionamentos, bem como diferentes demandas.
Um dos aspectos analisados refere‑se à dimensão de sua produção musical. Assim, este trabalho propõe a correção de informações relativas ao número de obras compostas por Chiquinha Gonzaga, anteriormente superestimadas em publicações que lhe atribuem quase duas mil composições.
De acordo com o pesquisador Wandrei Braga, o acervo digital de partituras reúne atualmente 263 músicas e seis peças teatrais integralmente musicadas pela compositora. Ainda segundo Braga, enquanto o catálogo definitivo não é concluído, estimativas baseadas em biografias, nos acervos digitais e no Instituto Moreira Salles indicam que sua produção pode chegar a aproximadamente 300 músicas (BRAGA, 2021).
Entre as iniciativas recentes de difusão dessa obra, destaca-se a coleção de partituras Chiquinha Gonzaga para Todos, lançada em 2020 por Wandrei Braga e pela pianista Maria Teresa Madeira, posteriormente disponibilizada também em formato e-book. Mais do que uma publicação musical, trata-se de uma ação de democratização do acesso, que reafirma o lugar de Chiquinha Gonzaga como referência estruturante da música brasileira e como patrimônio cultural compartilhado.
No entanto, limitar seu legado ao campo musical seria reduzir o alcance de sua atuação. Chiquinha Gonzaga foi uma figura pública que tensionou normas sociais, desafiou estruturas de poder e ocupou espaços tradicionalmente vedados às mulheres. Seu protagonismo artístico e político deixou marcas profundas na história cultural do país; e segue alimentando debates contemporâneos, especialmente no que diz respeito às questões étnico-raciais e de gênero.
Essa dimensão permanece urgente no Brasil atual. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), apontam que o país registrou 1.461 casos de feminicídio ao longo de 2025 — o equivalente a uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, com variação de 0,27% em relação ao ano anterior (MJSP, 2025). Inserida nesse contexto, a memória de Chiquinha Gonzaga ultrapassa a evocação histórica: ela se converte em símbolo de resistência e de enfrentamento às desigualdades estruturais de uma sociedade historicamente patriarcal. No que se refere à cultura popular, essa memória encontra no carnaval um dos principais espaços de circulação e legitimação simbólica.
Muito além de “Ó Abre Alas”
A vida e a obra de Chiquinha Gonzaga remetem, portanto, além da música, ao pioneirismo e à resistência social. No imaginário coletivo, essa presença torna‑se especialmente visível no contexto do carnaval. Falar da maior festa popular do país é, quase automaticamente, evocar Ó Abre Alas (1899), composição que atravessou mais de um século, permanece atual e é reconhecida por diferentes gerações, reafirmando, pois, a centralidade da cultura popular como espaço de memória, transmissão simbólica e perenidade histórica.
Essa associação simbólica da compositora carioca com o carnaval motivou diversas homenagens em escolas de samba ao longo do tempo. Em 1972, a Unidos da Tupy de Brás de Pina apresentou o enredo Chiquinha Gonzaga, alma cantante do Brasil. A Estação Primeira de Mangueira reverenciou a compositora em 1985, com Abram alas que eu quero passar, seguida pela Imperatriz Leopoldinense, em 1997, com Eu sou da lira, não posso negar. Em 2006, a escola Águia de Ouro, de Juiz de Fora, Minas Gerais, apresentou na avenida o enredo Águia de Ouro abre alas e pede passagem para Chiquinha Gonzaga.
Além dessas, a presença da compositora no carnaval também se manifesta por meio de referências pontuais em outros enredos dedicados à história cultural brasileira. Mais recentemente, em 2025, com O abre alas, a ESACA vai passar, (ESACA, como é conhecida a Escola de Samba Avenida Carlos Alves) Max Roger e Heliveton Fonseca levaram o nome de Chiquinha ao público de outra cidade mineira: São João Nepomuceno. Os compositores rememoraram marchinhas emblemáticas e fizeram referência explícita à compositora. O maestro Max Roger Rodrigues de Oliveira ressalta que: “(…) se ontem tivemos Francisca, hoje temos Chiquinha com sua obra eternizada em bailes e blocos carnavalescos, mantendo as origens do compasso binário no carnaval brasileiro. Foi emocionante reviver Chiquinha no samba enredo que a cidade inteira cantou.” (Entrevista concedida por Max Roger à autora, por meio eletrônico, em 21 de janeiro de 2026.)
O aspecto mais relevante, entretanto, é que a evocação de Chiquinha Gonzaga excede a lógica episódica do carnaval, constituindo‑se como capital simbólico ativo no campo da cultura popular brasileira, continuamente mobilizado em disputas por reconhecimento e legitimação. Sua obra e sua trajetória de vida seguem suscitando reflexões sobre cultura, gênero, sociedade e memória.
Ao transcender o Rio de Janeiro do século XIX e resistir aos mecanismos do apagamento histórico, Chiquinha consolidou‑se como figura essencial da história cultural brasileira. Independentemente de preferências musicais, seu legado segue vivo, atual e socialmente necessário — mesmo após mais de 90 anos de sua morte.
Referências bibliográficas:
BRAGA, Wandrei. Não é bem assim! ChiquinhaGonzaga.com. Acesso em: 20 jan. 2026.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mulheres e segurança pública. Acesso em: 20 jan. 2026.
ROGER, Max; FONSECA, Helivelton. Samba-enredo ESACA 2025: Ó abram alas, a ESACA vai passar!. In: SABONES, Márcio. YouTube. Acesso em: 21 fev. 2026.