O pianista e pesquisador de Chiquinha Gonzaga, Wandrei Braga, também responsável pelo site ChiquinhaGonzaga.com, descobriu, em setembro de 2021, documentos que revelam um novo acontecimento na vida da compositora. 

A história de João, um jovem escravizado, que pertenceu ao casal Chiquinha e Jacintho é revelada pela primeira vez

Por ironia, eis que surge mais um João na biografia de Chiquinha Gonzaga. As informações sobre esse novo João foram encontradas no periódico GAZETA JURIDICA, de 1876, em um processo onde seu proprietário, Jacintho Ribeiro do Amaral, recorreu sobre sua libertação. Observando as datas e a menção de uma esposa no processo iniciei as investigações até chegar em uma Carta de Alforria escrita por Chiquinha Gonzaga. Vamos entender esta história a partir da união dos dois e alguns marcos importantes:

 

1863 – Casamento de Francisca Edwiges Neves Gonzaga (Chiquinha Gonzaga), aos 16 anos, com Jacintho Ribeiro do Amaral. Sabe-se que ele não gostava e nem apoiava Chiquinha em relação a música. 

1864Nascimento de João Gualberto, filho de Chiquinha e Jacintho

1865 – Nascimento de Maria, filha de Chiquinha e Jacintho

1867Imprensa anuncia Sarau Artístico com participação de Chiquinha Gonzaga

1870 – Nascimento de Hilário, filho de Chiquinha e Jacintho

1870 – Chiquinha conhece e se apaixona por João Baptista de Carvalho, engenheiro rico e amigo da família Gonzaga, e é em tudo o oposto de Jacintho: alegre, espirituoso e amigo da música e da dança.  

1871, setembro – Lei do Ventre Livre, que considera livre todos os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de então.

1875, 8 de março – Chiquinha escreve uma Carta de Alforria para libertar João, um jovem escravizado do casal, mas nesta data Chiquinha não morava mais com Jacintho há anos, revelou os documentos encontrados. Abaixo a transcrição da carta.

Eu abaixo assinada declaro que sendo casada a face da Igreja com Jacintho Ribeiro do Amaral tendo no casal um escravo pardo de nome João idade 25 anos profissão cozinheiro, tenho ressalva da atenção aos bons serviços que tem prestado dar-lhe liberdade como de fato dou pela quantia 800$000 que dele recebi em merecimento cuja quantia me seja descontada na minha meação devido assim o referido escravo [gozar] de uma liberdade para [sempre] como que de ventre livre [no] peço as justiças de V. M. Imperial haja de fazer cumprir cumprir esta minha vontade.

 

Rio de janeiro 8 de março de 1875  

 

Francisca Hedwiges Gonzaga do Amaral

Chiquinha já havia abandonado o casamento com Jacintho, por consequência os três filhos, para viver com o engenheiro João Baptista de Carvalho, de quem, nesta data, está grávida de alguns meses.

A Carta de Alforria dá início a um processo judicial movido por Jacintho, para torná-la sem efeito alegando que Chiquinha não tinha direito de libertar João.

 

1875  – Chiquinha sofre processo de divórcio perpétuo, movido por Jacintho no Tribunal Eclesiástico.

1875, 24 de agosto – Nascimento de Alice, filha de Chiquinha e João Baptista de Carvalho.

1876, 30 de junho – Sai a sentença sobre caso do escravizado João, pelo Superior Tribunal da Relação

“Mulher, casada por carta de ametade, não pode conferir liberdade, a título gratuito ou oneroso, ainda que à conta de sua terça ou meação”

1876 – No início deste ano, Jacintho vendeu João para José Joaquim F. Júnior, conforme anunciado na imprensa.

1877, fevereiro. Chiquinha estreia como compositora ao publicar oito músicas, incluindo o grande sucesso, a polca Atraente.

1877-1878João é cozinheiro da Casa de Cornélio dos Santos & C, conforme anunciado na imprensa

1881, 13 de setembro – Atenção! Acha-se fugido há mais de dois anos, o pardo João, de estatura regular, provavelmente com 30 anos, pouca barba, bons dentes, magro e passa-se por livre. Quem o levar à Rua do Paraíso, 17, em Paula Matos, será gratificado – Anunciou a imprensa

1888 – É assinada a Lei Áurea e extingue-se a escravidão no Brasil. Chiquinha compõe o Hino à Redentora, uma explícita referência a Princesa Isabel. 

Muito embora inédita, essa história apenas reafirma, em documento, a coragem e a rebeldia de Chiquinha Gonzaga que, por tantos motivos e entre eles a sua origem em família escravizada, sabia exatamente seu lugar na história e o que deveria fazer. Sabe-se que ela seguiu na luta contra a escravidão libertando um escravizado conhecido por Zé Flauta vendendo suas próprias partituras na rua.

A Carta de Alforria escrita por ela há mais de 140 anos traz de volta o vulto da escravidão no Brasil e uma tentativa de libertação em tempos sombrios. E João, qual foi seu destino? Previsível?… Se não encontrado, e torço por isso, espero que tenha, por fim, vivido a LIBERDADE!

Wandrei Braga, fevereiro de 2022.

Créditos/Fontes/Agradecimentos:

Biografia: Chiquinha Gonzaga uma história de vida. Edinha Diniz, Zahar, 2009. 

Sites: Biblioteca Nacional Brasileira e Arquivo Nacional 

Consultorias: Advogadas Cora Ferreira da Silva e Carla Godoy Nunes; e a Jornalista Jane Duarte

Pianista: Douglas Passoni de Oliveira