Ela marcou a cultura brasileira com marchinhas memoráveis e uma trajetória transgressora. É lembrada, agora, em mostra inédita no Itaú Cultural

Texto: Danilo Casaletti e Júlia Corrêa

Uma exposição em homenagem a Francisca Edwiges Neves Gonzaga, consagrada como Chiquinha Gonzaga (1847-1935), pode ser vista no Itaú Cultural a partir desta quarta-feira, 24. Documentos, partituras, objetos, fotos e conteúdos musicais resgatam a trajetória e o legado da compositora e maestrina brasileira. Imortalizada pela criação de marchinhas clássicas como Ó Abre Alas, Chiquinha teve uma vida marcada por ousadias tanto em sua carreira musical quanto em suas relações privadas. Tudo isso em um momento em que o Brasil passava por intensas transformações, na transição do Império para a República. A seguir, conheça mais de sua história.

Formação

Chiquinha nasceu em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro. Era filha de uma parda liberta e de um militar bastante rígido. Nesse contexto, segundo Simoni Barbiellini, produtora-executiva da mostra no Itaú Cultural, ela recebeu uma formação conforme o que era considerado o ideal para as “boas meninas” da época.
Saber tocar piano, por exemplo, era uma habilidade bem-vista socialmente. Assim, aos 11 anos de idade, passou a ter aulas com professores no próprio ambiente doméstico. A partir daí, faria apresentações dentro de casa, em saraus que reuniam familiares e amigos dos pais.

Transgressões

Chiquinha casou-se em 1863 com Jacinto Ribeiro do Amaral, com quem teve dois filhos — João Gualberto e Maria do Patrocínio. Diante de crises que envolviam o ciúmes do marido por seu envolvimento com a música, o casamento durou menos de uma década. Naquela época, o divórcio não era uma possibilidade. Chiquinha, mesmo assim, decidiu abandonar o marido para ir viver, em 1872, com o engenheiro João Batista de Carvalho, de quem engravidou de Alice, sua terceira filha.
Ao visitar a exposição no Itaú Cultural, o público poderá conferir itens reveladores do que configurou uma grande transgressão de Chiquinha em relação às expectativas em torno das mulheres naquele momento. Um documento mostra, por exemplo, o processo que seu marido abriu contra ela por “abandono do lar”.
Pouco tempo depois, como uma forma de ganhar a vida e garantir o sustento dos filhos, Chiquinha passou a anunciar o seu trabalho como professora de música, francês e de disciplinas básicas. Nesse meio tempo, de forma autodidata, aprendeu a instrumentar.

As transgressões de Chiquinha, no entanto, foram muito além das suas relações privadas (marcadas também pelo envolvimento com um companheiro 36 anos mais jovem). Em sua trajetória na música, ousou não apenas como mulher, ao tornar-se a primeira a reger uma orquestra no Brasil (com a estreia da peça A Corte na Roça, em 1885), mas puramente como artista, ao compor a primeira canção carnavalesca do País — Ó Abre Alas, de 1899, que até hoje marca a cultura brasileira.
Carreira

Entre 1902 e 1909, Chiquinha fez diferentes viagens à Europa, chegando a instalar-se por mais tempo em Lisboa, onde atuou como compositora de partituras para o teatro. Foi nesse período que ela começou a dar atenção à questão dos direitos autorais, depois de ver obras suas sendo vendidas sem autorização. Nos anos seguintes ao seu retorno ao Brasil, participou, assim, de campanhas em defesa dessa causa. Nesse contexto, em 1917, foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.
Se as composições de Chiquinha cercam o imaginário brasileiro ainda hoje, são quase inexistentes os registros de sua voz ou de interpretações suas ao piano. Na exposição no Itaú Cultural, o público poderá conferir um áudio raro, mostrado aqui com exclusividade pelo Estadão. Trata-se de um registro de 1922, encontrado em 2015 pelo colecionador e pesquisador Gilberto Inácio Gonçalves. A gravação, digitalizada pelo IMS, traz a voz de Chiquinha a anunciar duas composições que interpretaria na sequência: Argentina e Saudade.

Não se pode dizer que a recepção da produção de Chiquinha foi sempre favorável. Como será possível verificar na exposição, havia quem visse sua obra de forma pejorativa. Em 1914, por exemplo, Rui Barbosa fez um discurso no Senado Federal condenando a execução, em uma recepção presidencial, de uma composição da artista. Em sua última década de vida, Chiquinha ganhou, no entanto, o devido reconhecimento por seus feitos artísticos, sendo homenageada, em 1925, pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais como “heroína maior da música brasileira”.

Por ironia do destino, a compositora da primeira marchinha brasileira morreu em 28 de fevereiro de 1935, em plena época de carnaval.

Legado
Na imprensa

Em artigo para o Estadão, publicado em 19 de fevereiro de 1940, Mário de Andrade relembra o pioneirismo de Chiquinha. As dificuldades enfrentadas pela maestrina em seu meio eram evidentes. Segundo ele, “para se impor como compositora de teatro, Chiquinha Gonzaga teve de lutar muito. Era mulher, e embora já celebrada nas suas peças de dança, ninguém a imaginava com o fôlego suficiente para uma peça teatral”. Ela, contudo, teve fôlego de sobra: “Foi a primeira regente mulher que já tivemos”, anota o crítico e escritor paulistano.
Sua consagração popular não vinha desacompanhada de refinamento. Para Mário de Andrade, “o interesse maior de Chiquinha Gonzaga está nisso: a sua música, assim como ela, soube resvalar pela boemia carioca sem se tisnar, é agradável, é simples sem atingir o banal, é fácil sem atingir a boçalidade” — uma observação que registra perfeitamente o trânsito da compositora entre o popular e formas mais refinadas.

Já em 1940, o autor de Macunaíma assinalava com justiça o papel político de Chiquinha, sem diminuir-lhe em nada a excelência estritamente musical: “A autora do Corta-Jaca foi realmente uma mulher enérgica, cheia de iniciativas. Republicana apaixonada, tomou parte nas lutas de 1893, publicando músicas de sentido político. Chegou a ter ordem de prisão por isso, as cópias de cançoneta Aperte o botão foram apreendidas e inutilizadas”.

Um musical para Chiquinha

Em 1998, a atriz Rosamaria Murtinho protagonizou o musical Ó Abre Alas, com texto de Maria Adelaide Amaral, baseado na biografia escrita por Edinha Diniz (consultora da mostra no Itaú Cultural). O espetáculo comemorava os 105 anos de Chiquinha Gonzaga e foi importante para, mais de 60 anos após sua morte, apresentá-la para uma nova geração, que talvez só a conhecesse pela marchinha que deu nome ao musical. A direção ficou a cargo de Charles Möeller.

No Rio de Janeiro, terra de Chiquinha, o espetáculo foi encenado no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, no centro da cidade, palco pelo qual passaram inúmeras peças para as quais a maestrina compôs e onde ela mesma se apresentou.
Em dia de espetáculo, a atriz cumpria um ritual: ia até a igreja de Nossa Senhora de Lampadosa, a poucos metros do teatro, rezar. Assim como a Praça Tiradentes, o local tem uma importância histórica: foi nele que o herói da Inconfidência fez sua última oração antes de ser levado à morte.

Acostumada a interpretar mulheres de personalidades fortes — ela também deu vida nos palcos à escritora Clarice Lispector e à cantora Isaurinha Garcia —, Rosamaria diz que, ao contar a vida de Chiquinha, descobriu-se feminista. “Ela não tinha dinheiro para comprar chapéus — e mulheres, na época dela, só podiam sair de casa cobrindo a cabeça —, então começou a usar os laços. Era uma mulher forte, corajosa“.

Um ano depois, a TV Globo levou ao ar a minissérie Chiquinha Gonzaga, que foi protagonizada pelas atrizes Regina Duarte e Gabriela Duarte, escrita por Lauro César Muniz e dirigida por Jayme Monjardim. Rosamaria chegou a ser cogitada também para o papel de Chiquinha na televisão — Claudia Abreu faria a maestrina mais nova — porém, acabou participando com a personagem de Princesa Isabel.

Obra Acessível

Quando a minissérie sobre a vida e carreira de Chiquinha Gonzaga foi ao ar, em 1999, Wandrei Braga estudava piano e se encantou com a história da compositora que ele conhecia apenas pela marchinha Ó Abre Alas. De imediato, ele criou um site em homenagem à artista.

Com o interesse crescente pela obra de Chiquinha, Braga partiu em busca das partituras das músicas compostas por ela, guardadas no acervo do IMS. Com o intuito de popularizá-las, ele comandou, em 2011, um projeto de digitalização de 360 delas, que passaram a ficar acessíveis no site chiquinhagonzaga.com.
Recentemente, Braga e a pianista e doutora na UniRio Maria Teresa Madeira, que já gravou três álbuns com as composições de Chiquinha, lançaram a coleção de Chiquinha Gonzaga Para Todos: Piano Iniciante ao Avançado, com 145 partituras divididas em 4 livros (R$ 300). “A gente fez um recorte só de piano solo e organizou por ordem de dificuldade, de uma maneira didática. Chiquinha não compôs para iniciantes, então, tivemos que criar algumas simplificações para trabalhar didaticamente o acesso a sua obra”, explica Braga.

Braga acredita que a obra de compositores brasileiros precisa ser mais valorizada pelas escolas de música e universidades. Para ele, o legado de Chiquinha tem grande importância histórica e ainda ressoa na música popular brasileira.

“No Brasil colonizado, recebemos muita influência da música europeia, que se instala no Rio de Janeiro junto com a Família Real. Chiquinha é uma compositora de transição. Ela, Ernesto Nazareth, Joaquim Callado e outros compositores pegam os ritmos europeus, como a polca, a valsa e a mazurca, e misturam com influências indígenas e africanas. Surge uma nova vertente que vai dar no choro. A partir daí, o Brasil ganha uma identidade musical. Depois, vem o samba, a bossa nova e os demais gêneros. Para entender a música brasileira, é preciso estudar Chiquinha Gonzaga”, afirma.

Expediente
Editor executivo multimídia: Fabio Sales / Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia: Adriano Araujo, Carlos Marin e William Mariotto / Designer multimídia: Danilo Freire / Edição: Charlise Morais / Reportagem: Danilo Casaletti e Júlia Corrêa

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