Centenário de Chiquinha Gonzaga, por Viriato Corrêa, 1947

O periódico A NOITE, de 23 de outubro de 1947, publicou o seguinte texto assinado por Viriato Corrêa.

CHIQUINHA GONZAGA Está o país comemorando festivamente, há vários dias, o centenário do nascimento de Chiquinha Gonzaga. Graças a Deus! Graças a Deus que, no Brasil, já se vai dando valor ao que é brasileiro! O caso de Chiquinha Gonzaga vale a pena lembrar. Vale a pena lembrar porque ela atravessou a vida como uma criatura quase indesejável. Para o snobismo nacional, não era senão uma pobre mulher que compunha polcas, valsas, modinhas, maxixes e músicas de peças para teatros populares.

Ninguém procurava ver se as músicas encerravam originalidade o que elas possuíam de substância brasileira, se eram ou não expressões genuínas do sentimento popular. Vinham ou não vinham de uma criatura sem títulos académicos? Tinham ou não tinham sido feitas para o povo? Bastava isso para que fossem melodias inferiores, que não podiam agradar aos ouvidos acostumados ao requinte dos grandes mestres da música estrangeira.

Quando eu conheci Chiquinha Gonzaga tinha quase setenta anos. E, apesar de ter começado na adolescência as suas composições musicais, ninguém, a não ser a massa popular, fazia caso de suas melodias. De muita gravata lavada da música brasileira ou palavras de profundo desdém: – A Chiquinha! Jaz miudezas, insignificâncias, coisas que não têm valor nenhum!

No entanto, bem poucos temperamentos artísticos, no Brasil, tiveram inspiração para construir, em sons, uma obra tão bela, tão graciosa, tão profundamente nossa. Ninguém consegue até hoje, transferir com tanta cristalinidade para a música, o sensualismo brasileiro. Sente-se em cada uma das suas frases musicais, um palpitar de carnes frescas, um bamboleio ardente de seios túrgidos. Tudo que é brasileiro, lá está na sua música: os nossos ardores, a nossa indolência, a nossa desordem, a nossa sensualidade, as virtudes e os venenos de todos os sangues que nos formaram.

Chiquinha Gonzaga não foi, apenas, a compositora que soube transformar em melodia os sentimentos da nossa gente, foi a mais surpreendente capacidade de trabalho que Deus criou no brasil, para dignificar uma saia. Parece que nunca houve, entre nós, nenhuma mulher (e raríssimos deviam ter sido homens) que tivesse produzido tanto quanto ela. Escreveu setenta e uma partituras de peças teatrais (operetas, Burletas e revistas); polcas, valsas, tangos, maxixes, canções, modinhas, lundus, mazurcas, chotis, quadrilhas e baladas, andam por aí [mais de duas mil].  

E não foi unicamente a grande inspirada, a grande trabalhadora. Foi também a patriota, Sentiu o seu país no que ele, em certo momento, tinha de mais emocionante no ponto de vista social. O episódio de sua faceta patriótica é realmente comovedor. Estava a propaganda abolicionista no período culminante. Patrocínio, Nabuco, Joaquim, Serra, José Mariano e João Clapp enchiam o país de ressonância do idealismo liberal. Nas ruas do Rio de Janeiro oferecendo de porta em porta  com uma mercadoria qualquer, uma senhora vendia polcas, tangos e modinhas. A vendedora era Chiquinha Gonzaga uma resistência surpreendente. Velha, bem velha, conservava o esplendor da inspiração. Quando lhe levei a “Juriti”, para que compusesse a partitura, ela já tinha setenta anos de idade. E escreveu a mais doce, a mais viva, a mais graciosa e a mais brilhante de todas as partituras que lhe saíram da inspiração. 

Felizmente, essa mulher excepcional não ficou  esquecida. O Brasil acabou reconhecendo que ela tinha uma obra digna de ser festejada. Ainda bem. 

[ ] Nota do Editor: A informação de que Chiquinha Gonzaga teria composto mais de duas mil músicas foi revisada. Levando em consideração seu acervo, sua obra é estimada em 300 composições. Leia mais.

Fonte: Biblioteca Nacional Brasileira / Hemeroteca Digital

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