Aplausos para quem abriu alas e eternizou-se na história, artigo exclusivo para o site CG.com

Por Maristela Rocha , texto inédito e exclusivo para o site ChiquinhaGonzaga.com

Há oitenta anos, no dia 28 de fevereiro, antevéspera de carnaval, partia Chiquinha Gonzaga (1847/1935). O que faz a compositora, pianista e maestrina carioca parecer tão contemporânea e ser rememorada tantos anos após a sua morte? Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, mais de um milhão de mulheres são agredidas a cada ano no Brasil. A violência contra a mulher é um problema social e de saúde que alcança proporções inimagináveis, além de demandar ações e políticas públicas. Levando-se em consideração estatísticas da Organização Mundial de Saúde, OMS, entre 84 países do mundo, o Brasil ocupava a 7ª colocação em níveis de feminicídio (Mapa da Violência 2012. Taxas de homicídio feminino (em 100 mil mulheres), em 84 países do mundo. Estão nas primeiras posições El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia, Colômbia e Belize. ), informações essas fundamentadas a partir de pesquisas realizadas entre 2006 e 2010. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, são estimadas 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano no Brasil, uma a cada hora e meia.

A lei Maria da Penha, de comprovada relevância, ainda não surte o efeito almejado. Apesar de estabelecer as formas de violência doméstica contra a mulher além da física, como psicológica, sexual, patrimonial e moral, bem como proibir as penas pecuniárias (pagamento de multas ou cestas básicas), dentre outras inovações importantes, tem na contramão as mulheres que acabam renunciando à denúncia por motivos diversos.

Adentramos o século XXI com atrocidades antigas como a mutilação genital feminina, prática ainda vigente em 29 países do mundo. Um estudo do American Journal of Public Health, segundo a BBCBrasil , aponta que 48 mulheres são violentadas a cada hora na República Democrática do Congo. De acordo com informações da Organização das Nações Unidas, ONU, até 2030, outras 86 milhões de mulheres deverão ter a vagina mutilada, além das 150 milhões que já passaram pela circuncisão.

Afeganistão, Paquistão, China, Etiópia, Arábia Saudita, Nepal e Índia estão entre os países que protagonizam a violência contra a mulher. Ataques de repercussão mundial, como o rapto de 300 alunas realizado pelo grupo Boko Haram na Nigéria, bem como o atentado contra a prêmio Nobel da Paz de 2014, Malala Yousafzai, no Paquistão, ilustram o drama de meninas em todo o mundo, conforme registra o escritório de direitos humanos da ONU.

O ideal da liberdade e da emancipação feminina

O que se podia esperar de uma figura feminina da sociedade carioca escravocrata, patriarcal e dominadora do século XIX? Certamente que ela representasse os ideais vigentes, dedicando-se ao lar e aos predicados valorizados como o bordado e a prática musical para os saraus familiares. Entretanto, com seu pendor para a ruptura, Chiquinha Gonzaga ultrapassava os limites impostos naquele tempo, firmando-se como mulher independente e profissional da música.

Personagem histórica com postura pertinente à condição de outsider, Chiquinha Gonzaga, através da sua trajetória pessoal e da sua obra, contribuiu para a disseminação de princípios e valores republicanos na sociedade. Ademais, trata-se de uma personalidade que legou à cultura nacional cerca de 2000 composições e foi vanguardista em aspectos relevantes para a história do Brasil: primeira maestrina e pioneira no teatro musicado, “A Corte na Roça”, em 1885; precursora na música para carnaval de rua, “Ó abre alas”, 1899 (marcha-rancho, inicialmente utilizada na peça “Não Venhas!”), na luta pelos direitos da mulher e da participação cidadã, integrando movimentos como a Revolta do Vintém, as campanhas abolicionista e republicana; primeira mulher, reconhecidamente, a se apresentar como profissional da música no exterior (1906); e, ainda, vanguardista na luta pelos direitos de autor, ajudando a fundar a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, SBAT, em 1917.
Sensível às causas do seu tempo, Chiquinha se tornou uma das pioneiras na atuação, como mulher e artista, em causas políticas e sociais. A importância de Chiquinha nessas manifestações teve destaque devido à sua expressiva produção musical. Por isso ela é uma personalidade relevante, não somente para a academia musical, mas para a história cultural do Brasil.

Como os vestígios, as pistas que informam sobre a história da imprensa na cidade do Rio de Janeiro podem estar contidos em outras fontes, além da mídia tradicional, a obra de Chiquinha se apresenta rica em informações e elementos para análise das práticas sociais. A compositora acompanhava atentamente os acontecimentos políticos e socioculturais. Obras como “Animatógrapho”, “Água do vintém”, “Pehô Pekim”, “Carlos Gomes”, “O Diário de Notícias”, “Hino à Redentora”, “O Século” comunicam muitos dos acontecimentos do Rio de Janeiro. Um exemplo relativo ao teatro de revista é a peça “Abolindemrepcochindego”, de 1888, escrita por Valentim Magalhães e Filinto de Almeida: uma menção à indenização pretendida pelos senhores de escravos, à campanha republicana, ao ministério Cotegipe, à visita de chineses ao Rio e à chegada do meteorito de Bendegó.

É possível, também, encontrar em algumas das suas obras respostas às afrontas quanto ao seu modo de vida publicadas em folhas impressas. Muitas vezes era mencionada na imprensa libertina do seu tempo, inclusive em paródias que a ridicularizavam, em uma forte demonstração de sua condição outsider perante a elite conservadora que a cercava. Percebe-se, a posteriori, que Chiquinha Gonzaga é enaltecida como uma das maiores figuras femininas do Brasil.

Muito além de “Ó abre alas”

Reverenciar Chiquinha Gonzaga no carnaval pode parecer redundância, sobretudo para os apaixonados por sua história e sua obra. Pode ser também um ideal de quem pretenda, de alguma forma, mas obstinadamente, perpetuar a memória da compositora na cultura nacional. “Ó abre alas” talvez seja seu trabalho mais conhecido por parte do grande público e sempre integra o repertório das folias de momo que ainda preservam o repertório carnavalesco tradicional brasileiro.

A popularização da marcha-rancho “Ó abre alas”, inspirada no cordão Rosa de Ouro, sediado no bairro Andaraí, onde a compositora morava, a consagrou como pioneira na música para carnaval de rua. Embora os cordões já utilizassem canções, coube a Chiquinha fixar o gênero. Essa composição enfatizava o carnaval como festa popular e, dessa forma, a música da rua passava, posteriormente, a integrar o repertório dos bailes nos salões. Além dos versos que enfatizam um ato desafiador, não poderíamos deixar de apontar que, mais uma vez, Chiquinha Gonzaga ampliava o seu espaço de provocação e de liberdade.

Se consultadas as biografias da compositora, pode-se afirmar que autoconfiança, ousadia e ânsia de liberdade eram marcas da vida pessoal de Chiquinha. No caso da compositora, conforme paradigma daquele tempo-espaço, a estrutura familiar centrada na imposição paterna, na ausência de um diálogo franco, espontâneo e, naturalmente, na relação conflituosa haveria, naturalmente, de desencadear uma série de problemas. A religiosidade, a dedicação aos afazeres domésticos, o ensino limitado, visando apenas o bom desempenho na vida social, não poderiam, certamente, convencer jovens com ímpeto de realização de suas aspirações, como Chiquinha Gonzaga.

Entretanto, as mulheres que saíam da reclusão doméstica e iniciavam uma vida social, deveriam, além da beleza, exibir a cultura adquirida nas novelas dos folhetins, contribuindo para a formação de um público para as produções românticas. Tratava-se de um público burguês, ainda impregnado da ideologia conservadora do sistema escravista colonial, que inviabilizava a circulação de produções artísticas de caráter mais crítico.

Entretanto, Chiquinha, com a sua capacidade de romper com o paradigma daquela época, contribuiu de forma acentuada para a nossa reflexão acerca da condição da mulher na-quele tempo e contexto históricos. Seu comportamento, audacioso para os padrões vigentes, nos faz pensar nela como legítima precursora de alguns movimentos sociais que teriam preponderância no cenário cultural décadas posteriores, como os debates acerca da questão de gênero e a emancipação feminina no século XX.

Maristela Rocha é Jornalista e professora. Doutoranda em Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, especialista em Música Brasileira e Educação Musical pela UninCor, graduada em Comunicação Social pela UFJF

Referências bibliográficas

BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa. Brasil – 1800-1900. Brasil – 1900-2000. 2 volumes. Rio de Janeiro: Mauad, 2010.

BBCBRASIL. Milícias usam violência sexual como arma de guerra no Congo. Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120814_congo_estupro_ru.shtml. Acesso em 08.01.2015.

CNJ. Lei Maria da Penha. Disponível em http://www.cnj.jus.br/programas-de-a-a-z/pj-lei-maria-da-penha/lei-maria-da-penha. Acesso em 09.02.2015.

DINIZ, Edinha. Chiquinha Gonzaga uma história de vida. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

ELIAS, Norbert & SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Ousiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

LAMARCA, Gabriela e VETTORE, Mario. Série: Qual é o impacto da Lei Maria da Penha na redução de homicídios femininos? (2). Disponível em http://dssbr.org/site/2014/04/serie-qual-o-impacto-da-lei-maria-da-penha-na-reducao-de-homicidios-femininos-2/. Acesso em 09.02.2015.

LAZARONI, Dalva. Chiquinha Gonzaga. Sofri e chorei. Tive muito amor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

LIRA, Mariza. Chiquinha Gonzaga, grande compositora popular brasileira. Rio de Janei-ro: Funarte, 1997.

ONUMULHERES. Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres. Fim da violência contra as mulheres. Disponível em http://www.onumulheres.org.br/?page_id=93. Acesso em 08.02.2014.

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência. Caderno Complementar 1: Homicídio de Mulheres no Brasil. Disponível em http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_mulher.pdf. Acesso em 09.01.2015.

24 opiniões sobre “Aplausos para quem abriu alas e eternizou-se na história, artigo exclusivo para o site CG.com

  • março 29, 2016 em 23:13
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    Algumas vidas para serem vividas não podem ser contidas por seu tempo. É o momento em que sua força e criatividade deixam marcas pelas mudanças que se fazem necessárias – tolas diante da necessidade de emancipação. Nos esclarecer e dividir conosco uma vida que por sua força rompia amarras e tabus nocivos a vida é trazer para o presente a mesma força – que o tempo não diluiu nem apagou. Me fez pensar ou sentir, não importa, que a violência também se faz limitando, apagando, discriminando não deixando a vida fluir espontaneamente.

  • junho 15, 2015 em 20:06
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    Querida Maristela,

    Um belíssimo texto! Ao retratar a violência feminina no mundo, você conseguiu resgatar a dignidade e a força de muitas mulheres, representadas na arte brasileira de Chiquinha Gonzaga. Parabéns!

  • fevereiro 20, 2015 em 15:17
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    Parabéns querida Maristela, por manter viva a memória da verdadeira história de lutas e conquistas por trás das tradições brasileiras. Há duas semanas do carnaval, indaguei crianças na faixa etária abaixo de 10 anos, alunos do Conservatório de Música de Juiz de Fora, sobre o que conheciam ou entendiam como “carnaval”. Respostas imediatas: “Globeleza” e “A pipa do vovô não sobe mais”. A partir de insistentes estímulos, “Mamãe eu quero” e “Se a canoa não virar” surgiam timidamente, dentre poucas marchinhas carnavalescas.
    Infelizmente,a exposição do corpo afro-descentente feminino e o deboche ao idoso colaboram para a manutenção de distorções consideradas “normais” no período carnavalesco,abafando os “aplausos para quem abriu alas e eternizou-se na história”,

  • fevereiro 19, 2015 em 13:08
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    Sempre gratificante ler seus textos Maristela.
    Salve Chiquinha…
    Salve Ó Abre Alas…
    A luta continua…

  • fevereiro 17, 2015 em 13:24
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    Maristela
    É um prazer constatar que para além do “Ó abre alas” encontramos uma mulher forte, à frente de seu tempo que, transpondo os portais da vida doméstica, acreditava na igualdade dos sexos e na importância da mulher na luta de uma sociedade mais justa.
    Parabéns pelo excelente texto!

  • fevereiro 16, 2015 em 09:17
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    Maristela! Parabéns pela matéria, me chamou atenção sua abordagem sobre a questão feminina, a violência contra a mulher no Brasil e no mundo, e a forma como você colocou Chiquinha Gonzaga dentro desse contexto. Realmente uma figura que mereceria maior destaque na história brasileira.

  • fevereiro 13, 2015 em 23:18
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    Parabéns pela linda matéria. Receba meus aplausos em ritmo de Abre alas.

  • fevereiro 13, 2015 em 23:08
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    Achei fenomenal o artigo. Particularmente por não conhecer a historia de Chiquinha Gonzaga. A relação com tema tao em pauta no momento foi de peculiar sabedoria. Parabéns

  • fevereiro 13, 2015 em 22:23
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    Parabéns pelo texto! Como a história de conservadorismo e a necessidade posturas vanguardistas ultrapassam o passar dos anos e as dificuldades enfrentadas por Chiquinha Gonzaga se mostram tão atuais, desafiando a nossa capacidade de evoluir sempre.

  • fevereiro 13, 2015 em 21:34
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    É sempre encantador ver os desdobramentos possíveis e a riqueza da história da vida e da obra da compositora Chiquinha Gonzaga. Sempre há o que se trabalhar e isso é muito surpreendente. Acho que o artigo é importante, atualizado e oportuno. Há muito o que se refletir sobre a relevância de Chiquinha para a história da música, da cultura e da democracia no Brasil. Palmas para as mulheres que abriram alas para tantas outras. Salve Chiquinha Gonzaga!

  • fevereiro 13, 2015 em 20:57
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    Que belo trabalho amiga Maristela, Parabéns! A verdade é que muitos de nós brasileiros não temos noção de quão importante foi a história, a vida desta mulher no nosso país. Fico feliz pela sua existência pois nos abriu portas que jamais imaginamos transpor, que bela explanação. Espetacular!

  • fevereiro 13, 2015 em 17:47
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    Parabéns pelo belo trabalho sobre aquela que “abriu alas ” nào só para a musicista , mas para a emancipação feminina . Foi muito abrangente Tanto na parte histórica do Rio de Janeiro e do Brasil , com mudanças de costumes em vários setores , para modernização do país .
    A estória pessoal de Chiquinha , nos enche de orgulho pelo pioneirismo na valorização feminina, para que assumíssemos nosso lugar na sociedade não só brasileira , mas mundial !

  • fevereiro 13, 2015 em 15:41
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    Maravilhoso.Chiquinha deveria estar na grade curricular das escolas. Tem muito conteúdo e se aplica aos dias atuais.

  • fevereiro 13, 2015 em 14:41
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    Maravilhoso. Aplausos. Abraços do CORUJA JF JOÃO CARLOS DE SOUZA LIMA FIGUEIREDO

  • fevereiro 13, 2015 em 12:55
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