Adeus da Juriti, por Viriato Corrêa

“A morte de Francisca Gonzaga não representa apenas a morte de uma velha artista.

Representa o desaparecimento de um grande labor, de uma imensa inspiração, de uma sensibilidade originalíssima e de uma das mais florentes expressões do sentir nacional. E mais ainda: representa a queda de um cetro artístico: o cetro da música popular no Brasil, que ela empunhava como soberana.

Foi até morrer a rainha maravilhosa da música ligeira do nosso país. Nesta fase incandescente de caldeamento racial é, na verdade, dificílimo dizer-se quais os traços característicos da alma brasileira. Mas dois ou três deles já estão claros e perfeitamente tangíveis: a sensualidade, a indolência e a nostalgia.

Francisca Gonzaga foi, na música, a intérprete máxima dessas três expressões palpáveis de brasilidade. E tão milagroso foi o seu gênio musical que esses três defeitos ela transformou em virtudes, que esses três venenos ela transformou em bálsamos.

Na música dessa grande intérprete da alma do povo, não se sabe bem onde se espreguiça a indolência, onde soluça a nostalgia e onde a sensualidade flameja.

E toda ela uma mistura de tudo isso, mistura escaldante, veludosa, esplendente, anestesiadora e diabólica que acaricia e incendeia, que arrebata e endoidece.

No Brasil, ainda nos parece inferior gostar de coisas simples, principalmente quando essas coisas simples trazem o estigma de ser nossas.

O esnobismo nacional não quis nunca tomar conhecimento da arte de Francisca Gonzaga. Que fazia ela? Partituras de revistas, de burletas, de operetas e polcas e valsas e maxixes e canhões e tudo isso com cheiro nosso e com expressão popular.

Para o esnobismo nacional tinha ela o mau gosto de sentir à brasileira, o imenso pecado de escrever coisas simples que todo o mundo sentia e todo o mundo compreendia.

Mas, a justiça do povo tem toque da justiça de Deus – não falha.

Para o povo, essa mulher que hoje desaparece foi tudo.

De norte a Sul do país houve um tempo em que não se ouvia outra música senão aquelas modinhas, aquelas valsas, aquelas polcas, aqueles maxixes que o esnobismo desprezava.

A morte de Francisca Gonzaga não representa apenas a morte de uma artista. Não representa apenas a queda do cetro de uma soberana. Representa também o desaparecimento de uma gloriosa floração de civismo.

Essa artista que aí está à beira da sepultura não trabalhou somente pela beleza artística do seu povo, trabalhou também pela beleza humana do Brasil.

Foi em 87 (1887) e em 88 (1888). Em todo o país ardiam as flamas da propaganda abolicionista. A imprensa, com Patrocínio à frente, ateava o incêndio no fundo da sensibilidade nacional. Das fazendas, os negros fugiam em massa e nas cidades formavam-se associações para alforriar escravos. No Rio de Janeiro, uma mulher compunha polcas, compunha valsas, compunha maxixes, modinhas e canções e, em pessoa, saía para vendê-las na rua. E o produto da venda ia inteirinho para as associações que libertavam os negros.

Essa mulher era Francisca Gonzaga.

Francisca Gonzaga, a tua obra foi simples como são as coisas eternas, a tua obra é eterna como são eternas as coisas simples.

Que lá do outro lado da vida, a vida te seja bela e luminosa como aqui na terra foi a tua inspiração.

Chiquinha: este adeus, quem te mandou que te dissesse foi a tua sonora e dileta filha – a Juriti.”

Viriato Corrêa, 28 de fevereiro de 1935. Fonte: Chiquinha Gonzaga grande compositora popular brasileira, por Mariza Lira

Viriato CorrêaManuel Viriato Correia Baima do Lago Filho, ou apenas Viriato Correia (Pirapemas, 23 de janeiro de 1884 — Rio de Janeiro, 10 de abril de 1967) foi um jornalista, escritor, dramaturgo, teatrólogo e político brasileiro.

Viriato Correa

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