A Pioneira Chiquinha Gonzaga, por Geysa Boscoli

O livro A pioneira Chiquinha Gonzaga pode ser considerado a segunda biografia sobre a compositora. No texto o autor traz um olhar peculiar sobre Chiquinha Gonzaga sendo ele sobrinho dela. Algumas informações contidas no livro foram atualizadas pela biógrafa Edinha Diniz, em Chiquinha Gonzaga uma história de vida, revisada e atualizada em 2009, baseando-se em documentação sobre a compositora.

PREFÁCIO

Só quem examina a fundo o que era a organização patriarcal da família brasileira no século passado e a situação de absoluta inferioridade em que vivia a mulher no Brasil, a que as próprias oportunidades de educação eram negadas, pode compreender o papel exercido em nossa sociedade por uma figura como Chiquinha Gonzaga. Não será demais colocá-la entre as precursoras da transformação dessa sociedade, pelo heroísmo de sua vida, pela intensidade de seu trabalho, pela maneira audaciosa com que enfrentou preconceitos enraizados, anacrônicos e ridículos, como pela robustez de sua inspiração de autêntica artista.

Num livro hoje quase esquecido, A Educação Nacional, que teve a primeira edição em 1890, o eminente educador e crítico literário José Veríssimo dizia a propósito do problema da educação da mulher brasileira em seu tempo:

“Viveu esta sempre ali, ao menos até a entrada do século XIX, em meia clausura. Do convento ou recolhimento religioso, onde em geral se educava, passava à casa de sua família, onde a sua reclusão era apenas menor”. José Veríssimo atribuía aos “costumes orientais, introduzidos pelos muçulmanos na península ibérica” o “papel apagado e à clausura doméstica da mulher portuguesa” e, por extensão, da mulher brasileira, — a nossa velha “dona” honesta, severa e ignorante. Para Veríssimo, a melhoria da instrução da mulher brasileira só “começou no Brasil vai por um terço de século, com a criação das Escolas Normais, para formar professoras primárias”, pois antes disso “somente as moças de famílias abastadas recebiam alguma instrução, por via de regra deficiente e de aparato”. Na verdade, só na década de 1880, as escolas superiores se abriram às primeiras mulheres brasileiras. Uma delas, que seria a nossa primeira médica, Maria Augusta Generosa Estrela, teria de estudar nos Estados Unidos, por falta de ambiente no Brasil. E como foram recebidas, as nossas primeiras médicas e advogadas?

Foram recebidas com galhofas e com sátiras. Um autor teatral de incontestável talento, mas de espírito muito conservador, França Júnior, escreveu então a comédia As Doutoras, cuja conclusão era francamente reacionária: as mulheres tinham sido feitas para o lar, para ter filhos e criá-los, não para competir com os homens, invadindo as profissões destes… De certo modo, Chiquinha Gonzaga era uma dessas doutoras, pois que era doutora em música. E vinha invadir um campo em que tinham feito fama um José Maurício, um Francisco Manuel, um Elias Álvares Lôbo, um Henrique de Mesquita, um Carlos Gomes. O seu papel de pioneira foi na verdade importantíssimo, como mulher e como musicista. Essa moça rebelde, essa jovem revolucionária, enfrentou sozinha a hostilidade do meio. Hostilidade que não se dirigia apenas contra as criaturas de seu sexo, mas também contra as manifestações da nascente arte nacional, pois o esnobismo nos levava a importar tudo do estrangeiro: luvas do Poole, sapatos de Méliès, manteigas francesas, tecidos ingleses, músicas alemãs e austríacas para as nossas quadrilhas, e assim por diante.

É preciso não esquecer que, já em data bem recente, num certo dia do ano de 1914, uma primeira dama do país, que se chamava Nair de Teffé Hermes da Fonseca — a nossa primeira caricaturista – dando uma festa no palácio presidencial do Catete, animada por uma orquestra típica brasileira, fez incluir no programa o buliçoso maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Tanto bastou para que Rui Barbosa, a mais ilustre e importante figura da oposição nacional, subisse à tribuna do Senado Federal para invectivar o primeira dama, em termos pouco delicados, por ter rebaixado a dignidade de sua posição mandando executar numa festa dada na residência presidencial uma… uma musiquinha indecente! Note-se que, a essa altura, já era Chiquinha Gonzaga um nome nacional, penamerite vitorioso e consagrado.

Tendo sido dos que mais incentivaram Geysa Bôscoli a publicar os resultados de suas minuciosas pesquisas sobre a vida e a obra de Chiquinha Gonzaga, quero consignar nestas linhas o prazer com que li, em provas, este volume, no qual ele ampliou as sucessivas conferências feitas, para encantamento de seus ouvintes, sobre a extraordinária compositora, que teve ainda o mérito de ser um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e sua conselheira. Patrocinando a publicação deste trabalho, o Dr. Felinto Rodrigues Neto, diretor do Serviço Nacional de Teatro, presta um serviço não só ao teatro e à música popular nacionais, mas ainda aos investigadores do nosso passado, aos pesquisadores da vida social brasileira, na linha de um Gilberto Freyre ou de seus hoje numerosos discípulos.

R. MAGALHÃES JÚNIOR (Da Academia Brasileira de Letras)

capa do livro

Texto de orelha

A PIONEIRA CHIQUINHA GONZAGA

A lista de mulheres célebres brasileiras é muito mais extensa do que a que aparece nas referências orais dos chamados ignorantes brilhantes, esses que de tudo sabem uma partícula, para brilhar nos salões e nas praias. E como é sonora a elocução dos nomes de mulheres célebres na voz dos que apenas decoraram os seus nomes! Ana Nery adquire, então, fisionomia, corpo e alma, e, às vezes, chega-se a “ver” a Mãe dos Brasileiros pensando nas feridas das vítimas de Solano López. Já acontece o contrário com Soror Angélica (ou Soror, como sai, às vezes). Seu nome vem de mistura com o de Dona Domitila, embora uma tivesse tentado evitar que se fizesse em massa o que a outra fazia apenas irregularmente. Com a Maria Quitéria é diferente, porque tem um nome bom e fácil de citar-se. Mas quase ninguém sabe o que ela fez, a não ser os baianos, sempre ciosos dos feitos de sua gente. Benta Pereira, esta só mesmo os campistas encaixam quando podem na lista oral, mas não lhe citam os feitos, a menos que pertençam à Academia Campista de Letras, uma das mais atuantes do Brasil. Quanto a Bárbara Heliodora e Marília de Dirceu, é claro que destas os literatos são “fregueses de caderno”. Mas a lista é imensa.

São muitas as brasileiras que se tornaram célebres por variados motivos, uns válidos e outros até que não. Agora mesmo me lembrei de Rosa da Fonseca, só por causa do luxuoso navio do nosso velho Lloyd Brasileiro. E Anita Garibaldi? Bem, deixemos de citar nomes alheios a esta obra para o magnífico livro-reportagem-ilustrado de Geysa Boscoli. O advogado, jornalista e escritor, mais escritor que o resto, ele próprio perguntou um dia, como se o fizesse ao nosso querido João da JB: “Você sabe quem foi Chiquinha Gonzaga?” Ele sabia, e tinha obrigação de saber, como jornalista da Velha Guarda, como escritor e, sobretudo, como descendente da nossa primeira maestrina. A pergunta foi feita para intitular a excelente conferência que então compôs, e que pronunciou, com raro êxito, no Teatro Serrador, ilustrada por uma grande orquestra dirigida por Custódio de Mesquita, no dia 27 de setembro de 1943. Foi obrigado a repeti-la inúmeras vezes: em 1947 na sede da SBAT para comemorar o centenário de Chiquinha; no Club Ginástico Português, ilustrada pela OSB, sob a direção de Eleazar de Carvalho; ainda em 1948 na Rádio Ministério de Educação, com a orquestra do Teatro Municipal, sob a batuta do maestro Martinez Grau; em 1962, na Casa do Brasil, em Madrid, no dia de sua inauguração, sob a presidência do Ministro da Educação e Cultura; em 1967, na sede da SBAT, como parte das comemorações do quinquagésimo aniversário de fundação da Sociedade de Autores; e em 1968, no Auditório da ABI, com a colaboração da Escola Dramática Martins Pena, com a direção musical da Professora Deuziette Souto Mayor. Essas conferências foram gravadas pelas Rádios e pelo Museu da Imagem e do Som. Mas neste nosso imenso Brasil sem acústica, as sete conferências (irradiadas) e as gravações (reproduzidas em milhares de discos) não bastam para uma conveniente divulgação do que é preciso que todos saibam. Foi pensando assim que o acadêmico Raymundo Magalhães Júnior, companheiro de Geysa Boscoli, e conhecedor de sua dupla capacidade de conferencista e de escritor, a aconselhou a transformar o seu trabalho em livro, em estilo de romance biográfico. Andou bem o nosso querido Raymundo, confiando na capacidade de Geysa Boscoli, fundada na sua imensa bagagem de literatura teatral de vários gêneros, que revela o seu ecletismo, agora demonstrado no livro “A PIONEIRA CHIQUINHA GONZAGA”. E, afinal, um romance encantador, pelo estilo, pela leveza das narrativas e pela ação crescente, que é um dos sortilégios do teatro, e que coloca Geysa Boscoli entre os nossos melhores biógrafos, e situa a compositora Chiquinha Gonzaga (sócia n.º 1 da SBAT) entre as mulheres célebres do Brasil, como iniciadora da melhor música popular do país, como mulher bonita e como madrinha de todos os nossos carnavais, com seu famoso e eterno “Abre Alas”. JORACY CAMARGO

Geysa Boscoli – Geysa Libório Gonzaga de Boscoli (25/1/1907 Rio de Janeiro, RJ  – 7/11/1978 Caxambu, MG)
Teatrólogo. Escritor. Jornalista. Compositor. Sobrinho de Chiquinha Gonzaga. Irmão de Jardel (Jércolis) e Héber de Boscoli. Estudou nos Colégios Alfredo Gomes e Ateneu Boscoli. Formou-se, em 1927, pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Trabalhou como revisor no Jornal do Comércio e como repórter do jornal O Imparcial. Foi presidente da SBAT durantes seis anos consecutivos. Recebeu o título de Conselheiro Benemérito da Casa dos Autores. Fundou as revistas Ouro Verde e Show, os semanários A Comarca e Correio de Blumenau, em Santa Catarina, e trabalhou em vários órgãos da imprensa carioca. Escreveu o livro “A pioneira Chiquinha Gonzaga”, em edição particular. Faleceu aos 71 anos, na cidade mineira de Caxambu. (Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira)

Geysa Boscoli

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