Edinha Diniz fala com exclusividade ao site ChiquinhaGonzaga.com, que também apresenta material audiovisual inédito sobre o lançamento.

A biografia Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, lançada em 28 de maio de 1984 no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, revelou a maior figura feminina da música brasileira e uma das personalidades mais fascinantes da história do país. Sobre os bastidores da sua pesquisa de seis anos, Edinha Diniz já falou ao site tempos atrás. (clique aqui para saber mais). Agora, em entrevista exclusiva, a autora relembra o momento do lançamento e faz uma avaliação da consolidação da memória de Chiquinha Gonzaga ao longo desses trinta anos.

1. Revendo o vídeo do lançamento do seu livro sobre a Chiquinha Gonzaga, em 1984, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, percebemos que foi uma festa, é verdade? Você conseguiu atingir seu objetivo?

É, foi um verdadeiro happening. O grupo teatral Tá na Rua, dirigido por Amir Haddad, atuou com dezoito atores recriando cenas da vida e do tempo de Chiquinha na Cinelândia, em plena praça, e no foyer do Theatro Municipal. Houve participações da Banda da Polícia Militar e da bateria da Mangueira, que encerrou a festa nas escadarias. A ideia era levar a história ao público unindo os principais palcos da vida de Chiquinha Gonzaga: o salão, onde sua música era tocada; e a rua, onde ela enfrentou preconceitos. E esse objetivo foi atingido, sim.

2. E sobre o lançamento da biografia em São Paulo?

Foi com um recital de Clara Sverner e Paulo Moura no Rádio-Clube. Um luxo! Houve também a participação da Banda Sinfônica do Estado, que circulou antes pelo bairro, e do grupo teatral Sarau das Antas reproduzindo cenas da burleta “Forrobodó”. Também foi uma festa.

3. Você declarou que seu livro é um ensaio sócio-histórico porque você era socióloga quando o escreveu. Trinta anos depois, como você avalia seu livro? Chiquinha Gonzaga; uma história de vida é ensaio ou biografia?

Quando o lancei, em 1984, a onda de biografias no mercado editorial brasileiro ainda não havia começado. Tive uma preocupação, sim, em ampliar a contextualização para que a personagem fosse compreendida, uma vez que se tratava de uma transgressora. Sempre desejei a aceitação da Chiquinha pelo povo brasileiro, por achar que essa é uma história forte da construção da nacionalidade. Nesse sentido, o livro é mais um ensaio biográfico, mas terminou sendo enquadrado nessa tradição biográfica que se formou na área de música popular a partir dos anos 1990. Tudo bem, quando o classificam como biografia, isso não me incomoda.

4. Uma curiosidade: sua biografia sobre Chiquinha Gonzaga foi autorizada pelos herdeiros?

Não, nem cogitei em autorização. E por uma razão muito simples: eu trabalhei com documentação em grande parte pertencente ao arquivo pessoal, inédito, da Chiquinha, depositado na Sociedade Brasileira de Autores (SBAT), entidade que zelava pelos direitos da compositora e avalizava meu trabalho. Por outro lado, a descendência dela, dispersada pelo abandono da família, não tinha muito conhecimento da vida da antepassada. Durante a minha pesquisa, eu descobri o ramo da sua última filha e atestei para que recebessem os direitos autorais da compositora. Enfim, eu é que revelei a história para eles, e com documentação, portanto, não havia como questionarem. De qualquer forma, esperei os primeiros cinco anos, quando o direito dos herdeiros prescreve, com alguma expectativa.

5. Como você vê a polêmica atual sobre a liberação das biografias?

Percebo como uma pressão do mercado, porque a pesquisa historiográfica, séria, não é tão afetada pelos interesses dos herdeiros. Evidente que o direito à informação é inquestionável, mas temo o uso meramente mercantil desse direito. As editoras querem um cheque em branco, sem nenhuma contrapartida aos autores e leitores. Quem garante que a pesquisa histórica será incentivada? Pesquisa é muito caro e, em vez de produção de conhecimento, a preferência termina recaindo em apressados relatos jornalísticos sobre a vida de personalidades curiosas ou que estejam na mídia. Mas, é claro, torço pelo enriquecimento desse tipo de trabalho e ampliação da bibliografia existente.

6. É sabido que, somente após sua pesquisa, Chiquinha Gonzaga começou a ser devidamente reconhecida. Fale-nos dos desdobramentos do seu trabalho.

Acredito que o reconhecimento chegou no momento oportuno. Antes da década de 1970, quando iniciei a pesquisa, os estudos sobre condição feminina eram pouquíssimos. Se a emancipação feminina foi o movimento social mais bem sucedido do século XX, devemos lembrar que a sua consagração, com a instituição do Dia Internacional da Mulher, se deu naquela década. Portanto, a biografia chegou na hora certa, trazendo a história de uma brasileira que era exemplo da inquietação feminina no século XIX. O processo histórico é mesmo lento. Costumam dizer que a história só dá salto em cabeça de intelectual. Chiquinha Gonzaga só foi se tornar popular 150 anos depois do seu nascimento, com a minissérie da TV Globo. A pesquisa revelou o comportamento ousado da compositora, tornando-a uma nossa contemporânea; deu acesso ao seu acervo de partituras, permitindo gravações de sua obra; e ajudou a enquadrar a sua memória como figura fundamental na construção da nacionalidade e na luta pelas liberdades no país.

7. Você destacaria alguma iniciativa no reconhecimento à importância de Chiquinha Gonzaga?

Hoje, os admiradores de Chiquinha Gonzaga formam uma legião, e muitos contribuíram para esse reconhecimento. Mas creio que todos concordam que a minissérie da TV Globo em 1999, escrita por Lauro César Muniz e protagonizada por Gabriela Duarte e Regina Duarte, foi um marco na popularização da figura da compositora. E a publicação do Acervo Digital com suas partituras em 2011, feita por Wandrei Braga e Alexandre Dias, foi outro marco nesse processo de reconhecimento. Enfim, vida e obra de Chiquinha Gonzaga agora são de amplo conhecimento e acesso do público. E, com o conhecimento, vem o reconhecimento.

8. Os 25 anos da publicação de Chiquinha Gonzaga; uma história de vida, em 2009, foram comemorados com uma nova edição, equivalente à 12ª, desta vez revista e atualizada, confere? Por que você retomou a pesquisa?

Em primeiro lugar, eu precisava comunicar a transferência do acervo da Chiquinha da SBAT para o Instituto Moreira Salles, o que se deu em 2005. Precisava também corrigir dois dados surgidos depois que um novo ramo de sua família saiu do anonimato – fato ocorrido após a minissérie televisiva. Mas, o que me fez retomar a pesquisa e poder revelar uma nova camada de silêncio que ainda cercava a vida de Chiquinha Gonzaga foi a abertura ao público dos arquivos da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Isso me permitiu consultar os autos de seu divórcio e esclarecer algumas questões importantes de sua vida familiar.

9. A figura de Chiquinha Gonzaga resultou ainda mais fascinante nessa nova edição, sobretudo como mulher. Em que sentido você acha que a mulher brasileira precisa ainda avançar?

Sabemos que a liberdade muitas vezes é sacrificada pela segurança, pois o preço da liberdade é alto. Nesse sentido, o exemplo de Chiquinha Gonzaga é muito encorajador, ainda hoje. O avanço nas conquistas sociais tem se dado, devagar e sempre, mas a mulher brasileira ainda sofre violência doméstica e desigualdades salariais. Também acredito que se pode avançar na conquista de novas frentes de trabalho. Por fim, penso que a luta da mulher brasileira por liberdade com dignidade ainda continua.

10. Sabemos que Chiquinha vem sendo objeto de estudo de dissertações e teses em universidades brasileiras. Você vem acompanhando esses trabalhos acadêmicos? Alguma sugestão de pesquisa ainda a ser feita?

Edinha Diniz (Foto: Xico Diniz)

Acompanho boa parte. Sempre que sou procurada, coloco meus arquivos de pesquisa à disposição e oriento a consulta ao acervo sob a guarda do IMS, no Rio de Janeiro. Tenho feito, inclusive, amigos, entre pesquisadores e estudiosos da compositora. Após a publicação do Acervo Digital, espero que os estudos sobre a sua obra se desenvolvam mais. Gostaria, por exemplo, de ver estudos sobre a valsa na obra de Chiquinha Gonzaga, gênero que ela mais editou em vida e que acredito ter fecundado a melodia brasileira, de tradição tão cara. Também gostaria que valorizassem sua obra pianística e enquadrassem melhor sua contribuição ao choro, pois acho impróprio considerá-la “chorona”. Ainda temos a obra para teatro, cujo estudo poderia em muito ajudar a reencontrar o caminho para o musical brasileiro. Enfim, o estudo da obra está apenas começando.

Entrevista conduzida por Wandrei Braga, em maio de 2014.

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