LP Casinha pequenina com o incrível Muraro

LP parcialmente dedicado a obra de Chiquinha Gonzaga
Gravadora: RGE 1958 – Catálogo: XRLP 5037
Pianista: Muraro

Embora o título do LP seja Casinha pequenina, referente a uma das músicas nele gravada, metade do disco traz composições de Chiquinha Gonzaga, além da contracapa toda dedicada a compositora. Por falar em composições de Chiquinha, a segunda faixa do lado A, intitulada Forrobodó – Chôro e atribuída a Chiquinha, não consta na relação de músicas que compõem a opereta Forrobodó, recuperada pelo acervo Digital Chiquinha Gonzaga. O curioso é que, também na contracapa do LP, há uma fotografia do pianista Muraro ao lado de João Batista Gonzaga, com a legenda “Filho de Chiquinha”, mas hoje sabemos que trata-se do último companheiro da compositora e não o filho dela, e que ele ajudou na escolha das músicas. Estamos investigando e tentando identificar a música gravada como Forrobodó.

Ouça o LP

Repertório: 

  • (A.1) Freire Júnior – Luar de Paquetá
  • (A.2) Chiquinha Gonzaga – Forrobodó  
  • (A.3) G. Galos – Le lac de come
  • (A.4) J. Santos – Recordando
  • (A.5) Arranjo Muraro – Casinha pequenina 
  • (A.6) Chiquinha Gonzaga – Sultana
  • (B.1) Chiquinha Gonzaga – Phalena
  • (B.2) Chiquinha Gonzaga – São Paulo 
  • (B.3) Muraro – Tristeza de cachorro
  • (B.4) Enrique Santos Discépolo – Jira jira 
  • (B.5) Chiquinha Gonzaga – Atraente
  • (B.6) Chiquinha Gonzaga – Tambiquererê

Nota: música intitulada Forrobodó não foi identificada na obra recuperada pelo Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, nem como parte da opereta. 

Capas do LP

Texto da contracapa do LP

(com ajustes)

Uma das figuras mais curiosas e, talvez a maior do seu sexo, da música popular brasileira, foi Francisca Edwiges Gonzaga, que todos conhecemos e admiramos com Chiquinha Gonzaga. Conheci-a ainda rapazinho, em 1919, quando iniciava a vida de jornalista e homem de teatro. Embirrava com o meu cigarro sob o pretexto de que eu era ainda “muito criança para fumar diante dos mais velhos”. Ainda há pouco, na SBAT, Miguel Santos recordava isso, assim como as nossas reuniões diárias, no hall do Teatro São José, à noite a noite, em volta de Chiquinha. Fomos amigos durante anos.

Era uma velhinha meiga, sempre pronta a dar um conselho e a prestar um favor, mas de uma energia enorme para defender os seus pontos de vista, ou a sua classe. Tinha tremenda personalidade. Basta que se diga que, casada pela família aos 16 anos com o comandante de marinha mercante Jacinto Ribeiro do Amaral, dele logo se separa. O homem não gostava de música e ela totalmente musicista. Enfrenta então a vida para sustentar os filhos e a sociedade da época, com respeito a mulher.

A família e a rigorosíssima sociedade viraram-lhe as costas. Instalou-se como professora de música em Sao Cristovão, formando conjunto para tocar em bailes e festas. Era exímia pianista. Procurando aperfeiçoar seus dotes musicais, mesmo tendo que ganhar a vida, ainda encontrou tempo para ser aluna de Arthur Napoleão. Começa então a compor e a frequentar os “boêmios seresteiros” da cidade.

Em 1877, vem o seu primeiro sucesso, que Muraro intercepta neste LP. Nasceu essa composição em casa do maestro Henrique Mesquita, na Rua General Caldwel, então Rua Formosa, diante do Calado, (o maior flautista que já teve o Rio), Patola, Saturnino e outros músicos famosos da época. Sentando-se ao piano, e acompanhada pelos colegas, improvisou a “ATRAENTE, uma polca-choro, cuja primeira edição tem capa desenhada pelo grande Bordalo Pinheiro, e foi editada pelo Imperial Estabelecimento de Pianos e Música de Narciso, A. Napoleão Miguez. A música foi vendida nos milhares e pegou.

Voltou-se ela, então para o Teatro. Encontrou em Arthur Azevedo um amigo musicou-lhe a poca, até hoje inédita. “Viagem ao Parnaso. Mas logo a seguir musicou “A CORTE NA ROÇA”, que estreiou em 17 de Janeiro de 1885, pela Cia Souza Bastos, no Principe Imperial que seria mais tarde o Teatro São José. Daí teve inicio uma carreira de compositora de peças, que atingiram ao número de 77 partituras, das quais só 5 ficaram inéditas. Escreveu mais de 2.000 melodias (informação imprecisa, leia mais aqui)

Foi lançadora do gênero “Habanera”, que tanto sucesso teve entre nos, no fio do século passado, assim como do “maxixe-tango”. Neste Long, que a RGE lança hoje com Muraro, está também o tango “TAMBIQUERERÊ”, que tem uma curiosa historia. Em 1894 estava no nosso porto o navio de guerra francês “Duquesne”. Alguns oficiais que, a procura de música brasileira, haviam entrado na Casa Buschmann e Guimarães, na rua dos Ourives, por acaso ali haviam ouvido Chiquinha tocando o piano. Entusiasmaram-se e convidaram-na para uma festa a bordo onde, cum surpresa, Chiquinha ouviu a banda do navio tocar músicas suas e, para lhes ser grata, compôs a “Marcha Duquesne” Na festa em que a executou pela primeira vez, também executou esse tango Tambiquererê.

Lembremos ainda que Chiquinha é precursora da marcha carnavalesca, com celebre “ABRE ALAS”, composto especialmente para o “Cordão Rosa de Ouro em 1999, que foi um sucesso sem precedentes. Desde então em todos os carnavais apareceram marchinhas. O célebre Corta-Jaca”, de 1897 feito para uma peça de Machado Careca “Zizinha Maxixe”, com o nome de “Gaucho”, também foi outro sucesso enorme seu.

Chiquinha Gonzaga nasceu na Rua Senador Ponopeu (então Hua do Principe), e era filha do Marechal de Campo José Basileu Neves Gonzaga de D. Rosa de Lima Maria Gonzaga, a 17 de Outubro de 1817, e faleceu no Rio dia 28 de Fevereiro de 1935. Desde menina tocava piano, Foi a primeira mulher entre nós, a enfrentar a sociedade tornando-se compositora. Lutou pelo artístico e sua elevação. Suas viagens a Europa deram-lhe renome. Em Portugal musicou peças. Das peças que Muraro aqui apresenta temos, “SULTANA” que com “ATRAENTE” é uma de suas primeiras composições, datando de 1877. “PHALENA” (Falena) 1908, “SÃO PAULO” 1919, uma valsa e um tanquinho, e por fim esse admirável Forrobodó, levada a cena em 1912, no Teatro São José, com enorme sucesso.

Em uma simple contracapa não podemos dizer tudo o que fez esta extraordinária mulher e compositora. Vemos, lá longe, em 1925, na grande manifestação que fez a SBAT, da qual foi fundadora também, a figura de Avelino de Andrade em seu discurso a dizer:  “Chiquinha Gonzaga não é uma glória da música popular, é uma glória desse Brasil que ela soube amar” E assim é, realmente.

De MURARO não precisamos falar. Um argentino que se tornou brasileiro e que nosso público adora e tributa a maior das admirações pela sua esplêndida arte. Apresenta-nos ele ainda, neste Long, LUAR DE PAQUETÁ, de Freire Júnior, o célebre autor de “Ai, seu mé”, “Malandrinha”, etc. recentemente falecido. O sucesso desta melodia foi tão grande, com os versos de Hermes Fontes, que dela tirou ele uma bureta, com o mesmo nome, que foi um dos maiores êxitos de Alta Garrido. Um samba moderno, “Recordando”de J. Santos, um “tango” de H. Dicepolo, dos compositores mais populares da Argentina e a conhecidíssima valsa da Mme. Galos “Le Lac de Come”.

Eis aí o esplêndido disco que a RGE nos oferece, dando pela primeira vez, em Lang Play, a maior compositora popular que o Brasil já teve: CHIQUINHA GONZAGA. É um serviço prestado a cultura musical e a música popular brasileira.

BRICIO DE ABREU
Luiz Leopoldo Brício de Abreu (Rio Grande do Sul, 25 de agosto de 1903 – Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 1970 ) foi um jornalista, poeta, crítico teatral e dramaturgo brasileiro.

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