Pioneira nos estudos sobre a obra de Chiquinha Gonzaga, pianista Talitha Peres revela sua história com a compositora.

Talitha Peres, pianista mineira, de Montes Claros-MG), mestre em musicologia pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro- RJ, fez sua formação técnica e musical com a Profª Marina Lorenzo Fernandez Silva, em Montes Claros, MG. Gravou um CD totalmente dedicado à obra pianística de Chiquinha Gonzaga (Clássicos e Inéditos de Chiquinha Gonzaga), resultado da sua tese de mestrado sobre a compositora.

 

Talitha Peres, pianista

Talitha Peres, pianista

Entrevista exclusiva para o site CG.com

1 Quando você teve contato com a obra de Chiquinha e o que encontrou?

Em 1990, cheguei ao Rio de Janeiro, vindo de Montes Claros, interior de Minas Gerais, com o objetivo de cursar o mestrado em Musicologia no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro.

Desde o inicio do curso pensei em fazer um trabalho que mostrasse a trajetória da mulher na música. Em princípio seria um paralelo entre duas compositoras de épocas diferentes que se intitularia “Dois momentos, dois contextos”. De cara me veio o nome da compositora Chiquinha Gonzaga, com uma história de vida incrível, uma obra muito vasta, pioneira na música, não só como compositora mas também como pianista,  ativista política, etc. Fui à procura do seu material na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, da qual foi a única mulher fundadora) e fiquei impressionada com tudo o que encontrava. Seria difícil uma outra compositora com história de vida semelhante e de grande participação na vida musical para um paralelo, o que me fez optar por um estudo somente sobre a compositora Chiquinha Gonzaga.

 2 Por que a ideia de trabalhar os tangos de Chiquinha em sua dissertação?

A ideia da realização do meu trabalho, intitulado “Os Tangos para Piano de Chiquinha Gonzaga, Uma Análise Descritiva”, cuja defesa de tese ocorreu no dia 16 de março de 1995, nasceu, basicamente, da observação do universo mais reduzido de mulheres criadoras de bens musicais, em comparação ao universo masculino, estando claramente, as mulheres, muito mais destacadas como intérpretes da criação masculina. Aliás, numa visão histórica das atividades artísticas, de maneira geral, vê-se nitidamente a mulher muito mais amiúde como intérprete da criação masculina do que propriamente como criadora do bem artístico.

Como objeto de pesquisa do meu trabalho, não poderia deixar de escolher, portanto, o maior vulto feminino na história da música popular brasileira, ou seja: Chiquinha Gonzaga, considerada não só uma pioneira, como também um marco na criação musical nacional. A história da maestrina Chiquinha Gonzaga se entrelaça com a história do próprio país. Chiquinha viveu, combateu, participou e criou música numa época particularmente expressiva da história brasileira, época onde propriamente se forjou a cultura nacional; numa época de ampla participação política da população na campanha abolicionista.

A contribuição de Chiquinha Gonzaga na formação de uma identidade nacional no âmbito da música e o seu engajamento em questões fundamentais do período em que viveu, fazem da sua biografia um documento histórico da maior relevância para a nossa cultura. Apesar de sua importância histórica e musical, Chiquinha Gonzaga era muito pouco conhecida, o que nos levou a tentar resgatar a obra pianística da autora em questão, mais especificamente, a ter como objetivo na dissertação, o estudo sobre os tangos para piano.

CD Chiquinha Gonzaga: Clássicos e Inéditas, pela pianista Talitha Peres

CD Chiquinha Gonzaga: Clássicos e Inéditos, pela pianista Talitha Peres

3 A ideia de gravar um CD com músicas de Chiquinha surgiu antes ou depois da dissertação?

Durante o processo de pesquisa sobre a compositora fiquei encantada com aquele universo criativo ao qual tive acesso o que imediatamente despertou em mim o desejo de registrar parte da sua obra num CD, o que acabou acontecendo em 1999 com o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, da RioArte, numa realização do Conservatório Brasileiro de Musica do Rio de Janeiro (CBM). Apesar do trabalho sobre os tangos para piano, o CD conta com um repertório variado, incluindo tangos, polcas, valsas, mazurcas, habaneras, gavotas e lundús.

4 O que Chiquinha trouxe de relevante para sua vida profissional?

Sempre fui apaixonada pela música brasileira, Chiquinha intensificou em mim o desejo de conhecer ainda mais a nossa música.

Chiquinha me proporcionou grandes momentos em apresentações não só aqui no Brasil com também em Londres (Inglaterra), Kôln e Bonn (Alemanha), Lisboa e Santarém, Aveiro e Arouca (Portugal), Caracas e Mérida (Venezuela). A música dela é contagiante e sucesso garantido. Mesmo sendo uma pianista clássica, consegui entrar no universo dela e me sentir à vontade na interpretação. Tive oportunidade também de demonstrar o meu trabalho de pesquisa através de palestras ilustradas divulgando a obra pianística da Chiquinha e mostrando a importância dela na música brasileira.

5 Vinte anos depois de escrever sobre a música de Chiquinha, qual o impacto em sua carreia e, atualmente o que isso representa?

Chiquinha continua sempre presente no meu repertório.

Em 2013 o projeto Estações Musicais na Unimontes sob a minha coordenação, homenageou a Compositora com o concerto “Chiquinha Gonzaga em Noite de Gala” num grande evento dentro das comemorações dos 50 anos da UNIMONTES (Universidade Estadual de Montes Claros – MG)

Em março de 2014, estive me apresentando em Londres, Lisboa, Aveiro e Arouca em duo com a soprano Magda Belloti e como sempre alguns solos com músicas da Chiquinha fizeram parte dos programas.

O Minas Tênis Clube por diversas vezes brindou o público de Belo Horizonte com a minha interpretação e música de Chiquinha Gonzaga.

A música da Chiquinha me proporcionou também uma parceria com a minha filha Juliana Peres, que hoje enriquece o meu trabalho executando as canções da compositora.

Agora em outubro, mês do aniversário de Chiquinha, farei uma apresentação só com o repertório dela, no Auditório do CBM, Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, dentro da Série de quarta-feira, no dia 28 de outubro às 18:30 h.

Além da ligação do meu nome como intérprete da Chiquinha Gonzaga, tem também o lado acadêmico, onde como professora universitária fiz diversas palestras, inclusive na Alemanha, onde na Universidade de Kôln e em Portugal, no Conservatório de Aveiro, ministrei palestras sobre a vida e obra da compositora procurando sempre divulgar a obra pianística da compositora que é sempre muito bem recebida pelo público.

Como intérprete e como professora universitária, Chiquinha se faz sempre presente na minha vida profissional.

6 O que você sugeriria aos estudantes de música sobre o universo musical de Chiquinha Gonzaga?

Que mergulhem na obra dela, que é linda, bem brasileira, enorme, muito importante na história da música nacional e com certeza de grande receptividade pelo público, de qualquer nacionalidade.

Em função da amplitude da obra de Chiquinha Gonzaga, o meu trabalho foi apenas um esforço inicial no sentido de resgatar a obra de tão importante compositora. Seria necessário que outros esforços dessem continuidade ao que já foi realizado para que a música de Chiquinha seja colocada cada vez mais em evidência.

Ela tem uma obra vastíssima, portanto muita coisa a ser desvendada.

7 Ao estudar com profundidade os tangos de Chiquinha qual seria o impacto em relação a sua história de vida e na música brasileira?

O estudo da obra de Chiquinha Gonzaga me possibilitou grande conhecimento estético e histórico acerca da música brasileira, considerando que tratar de uma compositora de grande valor para a produção da música popular nacional, que muito contribuiu para a difusão e a valorização da música do país.

O pioneirismo do seu comportamento lhe dá um lugar de destaque na história social do país, porém, é na música que está sua importância maior, quando, ao lado de contemporâneos como Joaquim Antônio da Silva Callado Jr, Henrique Alves de Mesquita, Anacleto de Medeiros e Ernesto Nazareth, ajudou a definir os rumos da música produzida no Brasil e a fixar uma rítmica brasileira, fazendo da sua música, um marco da maior importância na história da Música Popular Brasileira. Seu nome tem uma posição relevante na história da música teatral  brasileira.

Além disso, a história de vida e as conquistas de Chiquinha Gonzaga, em uma época em que a mulher praticamente não tinha espaço na sociedade, demonstraram que garra, perseverança, coragem, amor à música e obstinação em torno de um ideal podem possibilitar ao ser humano grandes conquistas. Sem dúvida conhecer essa história e conviver com ela me fez considerar esses valores como ideologia e ideal de vida e de relação com a música.

Entrevista por Wandrei Braga,
Editor do sie CG.com, em outubro de 2015

Talitha Peres, pianista Resumo biográfico

Talitha Peres já se apresentou em Koln, Overath e Bonn (Alemanha), Londres (Inglaterra), Lisboa e Santarém (Portugal), Caracas e Mérida (Venezuela) divulgando a música brasileira e latino-americana. Em junho de 2009 apresentou-se em duo com o soprano Magda Belloti no Palácio Foz em Lisboa (Portugal), homenageando Villa-Lobos no cinqüentenário de sua morte. Em fevereiro e março de 2014 se apresentou na Inglaterra em St Martin in the Fields (Londres) e em Portugal, no Palácio Foz (Lisboa), Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian (Aveiro) e Cadeiral do Mosteiro de Arouca (Arouca) em duo com a cantora Niteroiense Magda Belloti, com um repertório totalmente dedicado à música Laureada em vários concursos de piano, apresentou-se como concertista e solista de orquestras nas melhores salas de concerto do país. Desenvolveu o trabalho de preparadora e acompanhadora das montagens operísticas produzidas pelo CBM, onde também participa do seu quadro de professores de piano e música de Como professora da Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros- MG), desenvolveu a pesquisa “Compositores de Montes Claros e suas obras: Características culturais e estético-estruturais”. Idealizou e coordena o projeto “Estações Musicais na Unimontes”, já na sua 16ª edição, e que oferece à comunidade montesclarense apresentações musicais periódicas, contemplando repertórios e temáticas variadas, bem como palestras, workshops, oficinas e masterclasses com músicos de reconhecida competência no cenário artístico da cidade e do país.  Atua frequentemente com artistas nacionais e internacionais, tendo se apresentado com Eiko Matsunaga (Japão), Mieczyslaw Milan (Polônia), Maria Lúcia Godoy (Brasil), Antônio Salgado (Portugal), Lício Bruno (Brasil), Magda Belloti (Brasil), dentre outros. Do crítico Antonio Hernandez do Jornal O Globo: “O piano impecável de Talitha Peres, que vale às vezes mais que uma orquestra refinada”. Do crítico Carlos Dantas do Jornal Tribuna da Imprensa:” Execução límpida, com domínio do legato e do staccato, dos contrastes tímbricos (parecendo às vezes um quarteto de cordas) e de dinâmica, enfim uma jóia, uma gema de alto valor, com finura e técnica de estilo”.

Discografia

  • Clássicos e Inéditos de Chiquinha Gonzaga , piano solo
  • A obra de canto de Lorenzo Fernandez, com o soprano Maria Lucia Godoy
  • Canções de Alberto Nepomuceno, com o soprano Maria da Glória Capanema e o tenor
  • Modinhas Imperiais, com o soprano Maria Lucia Godoy
  • Canções de Guerra-Peixe e Osvaldo Lacerda, com o soprano Maria da Glória Capanema
  • Paisagens Musicais –obras de Francisco Braga, Alberto Costa e Sérgio Bittencourt Sampaio , com o soprano Magda Belloti
  • Canções de Autores Brasileiros, com o soprano Maria da Glória Capanema
  • Canções de autores Brasileiros nº 2, com o soprano Maria da Glória Capanema e o barítono Fabrizio Claussen

Contato: talithaperes@superig.com.br