Escândalo político que envolveu a primeira dama do país, Dona Nair de Teffé, a compositora carioca Chiquinha Gonzaga e o senador Rui Barbosa no final do mandato do Presidente Hermes da Fonseca, o episódio conhecido como o “Corta-jaca” no Catete está comemorando um século.

Foi exatamente no dia 26 de outubro de 1914 que o tango de Chiquinha Gonzaga intitulado “Gaúcho”, popularmente conhecido como “Corta-jaca”, foi executado pela primeira dama, ao violão, em fina “soirée” no Palácio do Governo a que compareceram representantes do corpo diplomático e a elite carioca. Era a primeira vez que esse tipo de música penetrava nos salões elegantes da elite, fazendo com que o fato seja considerado a alforria da música popular brasileira.

Para comemorar o centenário deste acontecimento, músicos das mais diferentes gerações e formações gravaram o “Corta-jaca” especialmente para o site CG.com. Eudóxia de Barros, Quartessência, Roberto Gava, Quattro Duo, Diego Guedes, Thiago Matosso, Marieli Matosso, Ana Carolina Couto, Nilton Moreira, Hercules Gomes, Fabiano Borges, Sergio Checho Cuadros, Andrea Ernest Dias, Daniel Ganc, David Ganc, Manoel Theophilo, Marco de Pinna, Fernanda Canaud, Grupo de percussão do conservatório Maestro Paulino Martins Alves e André Mehamari. 

Acompanhe a história de o “Corta-jaca” através da linha do tempo:

Manuscrito autógrafo da terceira página da música Gaúcho (Corta-jaca), de Chiquinha Gonzaga.

Manuscrito autógrafo da terceira página da música Gaúcho (Corta-jaca), de Chiquinha Gonzaga.

1895 A composição é lançada no palco Teatro Éden Lavradio, Rio de Janeiro-RJ, dançado na cena final da opereta burlesca de costumes nacionais Zizinha Maxixe (libreto de José Machado Pinheiro e Costa). A peça ficou poucos dias em cartaz.

“Arre!!! são 3 e um quarto da manhã!
Estou cansada vou dormir…
Felizmente acabei – os galos cantam”

Desabafou Chiquinha ao terminar de escrever o Corta-jaca.

 

 

1902 Agora mais conhecida como “Corta-jaca”, a composição ganhou letra de José Machado Pinheiro e Costa e foi gravada em disco por Pepa Delgada e Mário Pinheiro.

Neste mundo de misérias
Quem impera
É quem é mais folgazão
É quem sabe cortar jaca
Nos requebros
De suprema, perfeição, perfeição

Ai, ai, como é bom dançar, ai!
Corta-jaca assim, assim, assim
Mexe com o pé!
Ai, ai, tem feitiço tem, ai!
Corta meu benzinho assim, assim!

Esta dança é buliçosa
Tão dengosa
Que todos querem dançar
Não há ricas baronesas
Nem marquesas
Que não saibam requebrar, requebrar

Este passo tem feitiço
Tal ouriço
Faz qualquer homem coió
Não há velho carrancudo
Nem sisudo
Que não caia em trololó, trololó

Quem me vir assim alegre
No Flamengo
Por certo se há de render
Não resiste com certeza
Com certeza
Este jeito de mexer

Um flamengo tão gostoso
Tão ruidoso
Vale bem meia-pataca
Dizem todos que na ponta
Está na ponta
Nossa dança corta-jaca, corta-jaca!

1904 – O “Corta-jaca” é reutilizado na revista Cá e Lá (peça teatral musicada por Chiquinha Gonzaga com libreto de Bandeira de Gouvêa e Tito Martins) com o título de “Coplas da jaca”. A composição ganha também uma nova letra dos libretistas. 

A jaca muito leitosa
Sou gostosa…
Que dá gosto de talhar…

Sou a jaca saborosa
Que amorosa,
Faca está a reclamar – bis
Para a cortar!

Ai!… que bom cortar a jaca
Sim!.., meu bem ataca/Assim assim!
Toda a cortar!…

Ai! Ai! que bom cortar a jaca
Ai! sim! meu bem ataca,
Sem descansar!…

Coro: Ai! Ai! que bom cortar a jaca!

1914 Escândalo no Palácio do Catete,quando, em recepção presidencial, a Primeira Dama do país, Dona Nair de Teffé, executa ao vilão o tango “Corta-jaca”.

Dona Nair de Teffé

Dona Nair de Teffé

  • Nair de Teffé um dia ouviu atentamente, durante um almoço em palácio, quando o compositor Catulo da Paixão Cearense, amigo pessoal do marechal, lhe observou que nas festas palacianas nunca se executava música nacional. Intrigada, ela resolveu consultar Emilio Pereira, seu ex-professor de violão. Foi ele quem lhe apresentou o tango “Corta-jaca” de Chiquinha Gonzaga.
  • Partitura do Gaúcho “Corta-jaca” feito pelo professor de violão de Dona Nair, Emílio Pereira (baixe o PDF)
  • A noite de 26 de outubro no Palácio do Catete abalou o cenário político, social e cultural daquela época!
  • Programa Musical de Recepção Presidencial de 26 de outubro de 1914, publicado no jornal A RUA, 6/11/1914 (clique aqui para ver)
  • Discurso inflamado de Rui Barbosa em sessão no Senado Federal.

1914 outubro 7 - A RUA - Programa musical Corta Jaca Palacio do Catete

 

“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao pais o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!” (Diário do Congresso Nacional, 8/11/1914, p. 2789. Refere-se à 147ª sessão do Senado Federal, em 7 de novembro de 1914.)

 

Salão de música do Palácio do Catete hoje Museu da República - Rio de Janeiro. Fotografia Janda Praia

Salão de música do Palácio do Catete hoje Museu da República – Rio de Janeiro. Fotografia Janda Praia

  • Entrevista inédita com Dona Nair de Teffé realizada por musicólogo Aloysio de Alencar Pinto

“Corta- jaca”

Pequena entrevista com Dona Nair de Teffé, no andar térreo do Palácio do Catete (sala dos despachos), no dia 8 de novembro de 1977, às 12 horas.

Pergunta: “Dona Nair, a senhora tocou ou cantou o Corta jaca aqui no Palácio?”

Resposta: “Sempre o Corta jaca! Eu estudei música e gostava de apresentar em reuniões músicas francesas, italianas, americanas. A propósito, Catulo da Paixão Cearense, com quem eu me dava muito, certa vez me disse: por que você não apresenta uma peça brasileira nas reuniões que realiza? Então perguntei-lhe que peça eu poderia tocar nestas apresentações. Por sugestão de Catulo, foi lembrado o Corta-Jaca, que no momento parecia ser a mais indicada. Aprendi a tocá-la no pinho, (expressão usada por ela para designar o violão) com Emílio Pereira, exímio violonista que residia em Petrópolis e que vinha ao Rio, me dar aulas aqui no Palácio. Foi com ele que aprendi a tocar o Corta-Jaca – jamais cantei a referida peça”.

Perguntei-lhe então, em que Sala do Palácio havia sido realizada a apresentação.

“Toquei o corta jaca, no Salão de recepção, ou seja, o Salão Nobre, local onde o Presidente da República recebia as credenciais dos embaixadores. Executei a peça sem nenhuma intenção pré-concebida e jamais pensei que esta audição fosse causar tamanha celeuma”.

Desde então, o “Corta-jaca” mereceu inúmeras gravações, passando a integrar, sobretudo em sua versão instrumental, o grande repertório do choro e da música nacional.

1985 O “Corta-jaca” fez parte da trilha sonora do filme “Sonho Sem Fim” dirigido por Lauro Escorel. 

  • Trilha sonora: música de Chiquinha Gonzaga pelo pianista Antonio Adolfo

1998 O Filme Policarpo Quaresma, herói do Brasil  inicia com o “Corta-jaca”
Dirigido por Paulo Thiago, baseado na obra Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, adaptado por Alcione Araújo. Mais informações clique aqui

 

1999 Minissérie Chiquinha Gonzaga, cena do Corta-jaca 
Escrita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes, baseada na vida da maestrina e compositora Francisca Edwiges Neves Gonzaga, dirigida por Jayme Monjardim, Luiz Armando Queiroz e Marcelo Travesso. A fonte histórica foi o livro de Edinha Diniz, Chiquinha Gonzaga; uma história de vida. Trilha sonora de Marcus Viana. Saiba mais

2011 Partitura publicada pelo Acervo Digital Chiquinha Gonzaga (clique aqui)


Fontes: Livro Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, por Edinha Diniz.
Site da Hemeroteca Digital Brasileira.
Site do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga
Documentário: A Maestrina Chiquinha Gonzaga Série 500 anos de História do Brasil, 1999

Agradecimentos especiais: Edinha Diniz, Alexandrei Dias, Douglas Passoni e Elizabeth Abel de Figueiredo.